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Marketing Pessoal – efêmero ou relevante?

No mercado existem duas possibilidades: criar ou atender uma demanda. Vamos ver as duas sob as lentes do marketing.

Dizem que quando Salvador Dali fez sua primeira exposição em Paris, um crítico de arte temido por uns e odiado por muitos escreveu horrores sobre seu trabalho. Dali, ao ler o jornal na manhã seguinte à vernissage, pegou um táxi e foi visitar a loja de antigüidades do aclamado difamador. Ao chegar diante da vitrine, olhou em torno e viu um pedaço de paralelepípedo... não hesitou, arremessou-o contra o vidro. A polícia francesa foi chamada para resolver a “pendenga” com o espanhol que esbravejava feito louco com o crítico. Algumas horas depois, Dali era liberado com o argumento de que o acontecido foram só vitrines partidas: a de Dali com a pena envenenada do escritor e a do crítico com uma pedra bem arremessada pelo artista. Se houve ou não ressarcimentos pecuniários, não é relevante, afinal o surrealismo estilhaçou todas as divisas e mudou a nossa história.

Salvador Dali fazia seu marketing como poucos. Este episódio rendeu-lhe muitas visitas à exposição, além de vasta presença na mídia da época. Genial e excêntrico, incorporou em suas atitudes o ápice de sua manifestação artística. Dali não criou só o surrealismo, viveu-o intensamente até o fim de seus dias. Muitas vezes o que parece “anti-marketing” é sim uma sofisticada linha de atração e vínculo com o público final almejado.

Vamos falar de criar uma demanda. Recentemente tive a felicidade de conhecer o criador da Chilli Beans óculos, o jovem Caito Maia. Um exemplo de empresário criativo com foco e disciplina. Ele inventou seu negócio. O óculos mais caro da Chilli Beans custa cerca de R$ 80,00 em qualquer uma das 130 lojas espalhadas pelo Brasil, Portugal e também EUA. Seu público é jovem, vaidoso mas com um toque rebelde, o que combina perfeitamente com a comunicação pouco tradicional da Chilli Beans. Tudo está integrado: as coleções, o design, a disposição nas lojas e quiosques. Ele sabe para quem vende – “para todos os bichos” – o que vende, como vende e quem é o seu vendedor – jovens que curtem o produto e gostam de gente. A embalagem não podia ser convencional. Lembra uma caixa de chapéu, às vezes quadrada, triangular ou redonda. Os eventos que patrocina e a que comparece são Raves, DJs... e algo muito importante, ele sabe quanto pode custar seu produto. Perfeito: produto, preço, promoção (comunicação) e ponto (distribuição), tudo em sintonia. Ele não tem benchmarking: é uma referência.

Vejamos outro exemplo, porém de alguém que atendeu uma demanda. Quando, 15 anos atrás, Andréa Elage criou a Zona D – considerada a mais original loja de design contemporâneo de São Paulo –, intuiu que havia um anseio por design nacional assinado. As outras lojas vendiam porém não contavam quem era o pai da criança. A Zona D abriu suas portas com o que havia de mais ousado e criativo. Seu público-alvo desde então são os arquitetos de interiores e admiradores de formas modernas.

Ambos, tanto Caito quanto Andréa, são entusiastas de seus negócios e apaixonados pelo que fazem. Mas eles vão além disto, olham constantemente para suas forças e fraquezas, aprendem todos os dias. Planejam, corrigem o rumo se sentem que o vento não está soprando naquela direção, delegam, preparam talentos e competências, têm nos fornecedores aliados, estão atentos à maré da concorrência, escutam e olham para os clientes. A decisão de preço não é fruto do humor, mas do posicionamento que escolheram.

A carreira de designer é difícil, limítrofe entre a arte e o objeto. No Istituto Europeo di Design de São Paulo – também conhecido como IED – a proposta educacional é projetar o futuro, dar forma à inspiração, é mais do que “saber” é o “saber fazer”. Cada aluno coloca à prova a própria criatividade experimentando novas linguagens, em sintonia com as transformações da sociedade. É neste contexto de mente aberta e conhecimento que o Prof. João Farkas e eu, responsáveis pela cadeira de marketing pessoal, estamos delineando um plano estratégico de marketing para as carreiras de cada um dos alunos do segundo ano.

Os alunos do IED são criadores e criaturas num só, as peças e trabalhos em gestação, os portfólios e estilos por vir. O mercado não é animador, a cópia ainda é a regra, mas esta é a chance de mudar o cenário. O mercado não é estático, é interativo e vai responder àqueles que souberem se posicionar adequadamente, lançar mão não só do talento mas também da construção e sustentação do seu personagem profissional, trabalhar sua visibilidade com coerência e bom senso e agir, afinal não existe designer sem criação.

Qual metodologia aplicar neste grupo? Esta foi a difícil questão inicial. Criamos uma baseados na que utilizamos em empresas e marcas pessoais. Adaptamos, inventamos alguns recursos adicionais, afinal é muito mais simples lidar com estruturas, por mais que a mudança nestas seja mais difícil. Com os alunos o exercício tinha de ser realista e de forma alguma reducionista, entretanto muito prático.

Marketing pessoal não é só networking, conhecer pessoas, ver e ser visto em badalados eventos, sair na mídia ou ter uma boa assessoria de imprensa. Marketing pessoal no negócio de design é um conjunto integrado de ações estratégicas, é planejamento, ter claro o seu público-alvo, uma política de preços coerente com o seu posicionamento, saber o que o mercado valoriza, pesquisa e diálogo com o mercado, estabelecer metas e ter a disciplina de persegui-las, traçar uma comunicação objetiva, mas antes ter bem claro qual é o seu sonho pessoal, como será o personagem que você comunicará, que identidade permeará sua imagem pública. A mídia é uma fogueira de vaidades e já queimou muita gente boa por aí, não dá para ser como a borboleta de luz que, fascinada pelo brilho, deixa-se expor até a morte. Entretanto, assumir quem você é pode ser o grande diferencial. Decerto as obras de Dali continuariam revolucionárias se ele não houvesse mostrado quem era, mas nós ganhamos muito ao saber que o homem era tão fascinante quanto sua obra.

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