Perfeito imperfeitoSurpresa: um anúncio traz uma mulher com sardas e rugas!
Tenho sardas — várias; por isso observo tanto a pele das modelos nos anúncios e sinceramente... está cada vez mais triste — ou melhor, cômico. Começarei pela maquiagem excessiva habitualmente aplicada; sempre me pergunto que beleza é esta. A propósito, outro dia estava num restaurante e meu marido perguntou-me: “O que é aquilo?” Vi uma mulher idêntica à Barbie — nariz, olhos, rosto liso como vidro, lábios, seios e pernas siliconadíssimos, cabelos loiros Marilyn e um vestido vermelho deslumbrante (sem ironia). Por mais que a descrição pareça atraente, era uma versão feminina do Michael Jackson, cena digna do teatro do absurdo de Beckett. Passamos agora para os clicks ágeis e meticulosos de nossos artistas do Photoshop, cujos número e intensidade já beiram a ficção de horror. Eles não criaram isso; aliás muitos se sentem transtornados com o número de mudanças solicitadas. Mas já trombamos num limite: para descer mais na estética do plástico, só cavando. Está na hora de vermos o perfeito imperfeito. Qual foi minha surpresa ao folhear uma revista neste domingo? Um anúncio da Bailey Banks e Biddle (para quem não lembra, ela comercializa diamantes para joalheiros) traz uma mulher com sardas, muitas e visíveis. Algumas finas rugas também estão lá para olhos amadores e profissionais. Venho acompanhando as campanhas da Natura. Desde quando estavam com Ricardo Guimarães, já havia uma atitude de mais naturalidade, mesmo com todo o tratamento digital que as fotos transpareciam. Isto significa que não é nenhuma novidade este pensamento, mas por que ele só aparece de maneira tão esparsa? Não penso que a passagem para algo mais próximo do real seja rápida, especialmente no Brasil campeão em número de cirurgias plásticas, onde o comércio se disfarça de medicina sob o epidérmico argumento de que a melhora da auto-estima leva à melhora da saúde. Como se a solução de complexos e problemas de auto-aceitação fosse instantânea. Por isso é um desserviço apregoarmos de maneira tão ubíqua o paradigma da beleza artificial. A repetição deste só subtrai de uma eventual proposta estética mais responsável. O movimento de mutilação do corpo em prol da moda ou de padrões impostos é um crime e nós, publicitários, temos contribuído diariamente quando elevamos ao inacreditável a “perfeição” das imagens. Faço um apelo aos diretores de arte e criação: incluam o assimétrico, considerem as marcas, apostem na dissonância, ousem quebrar esta tirania da plástica, mostremos um pouco mais do real, do verdadeiro, do belo que é também o espontâneo. Vai ser mais difícil, pois já empurramos tanto este “sabor” insípido da cara de borracha que talvez haja mesmo uma estranheza, mas em algum momento teremos de romper este círculo. É só olhar à nossa volta: nossos fotógrafos, verdadeiros artistas da imagem, mostram suas fotos em exposições sem tratamento — e são belas. Claudia Proushan, autora do livro Tibet — no Coração do Himalaia e fotógrafa de alguns projetos de nossa agência, disse-me outro dia, “devolve o descascado na parede, que faz parte da imagem”. Fiquei com vergonha por um lado e agradecida por outro. É preciso lembrar que, como princípio, o perfeito é imperfeito.
Publicado em 2004-04-25
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